
O papel do gaúcho, até l835, foi, primeiramente, o de auxiliar do colonizador na sua política expansiva rumo ao sul. Depois, o de guarda da fronteira meridional e agente da política exterior nos estados do Prata, visando assegurar a navegação brasileira nos grandes rios platinos. A independência da província argentina e a revolta de Artigas foram ter ao antigo continente de São Pedro, atenuadas ou agravadas, conforme as circunstâncias do momento.
De um lado, estava o gaúcho, preso à sua fidelidade, jamais desmentida, ao Brasil. De outro, era constantemente trabalhado por fatores importantes, oriundos do meio ambiente próximo, inclusive o da igualdade de idéias políticas: república e liberdade. Por outro lado, os dirigentes do Brasil, naquele tempo, não possuíam visão suficiente para compreender a situação da mais jovem e aguerrida das províncias, aquela à qual estava confiada a missão altíssima de resguardar a integridade da pátria. Ao invés de auscultarem-lhes os anseios, para atendê-los, procuravam esmagar-lhes os estos, como se consistissem em impertinências.
O Rio Grande do Sul não pudera, ainda, formar uma geração em condições de traduzir com eloqüência seus reclamos e formular seus anseios. Não sabia falar, só sabia agir. Como não tomara parte ativa no movimento que despedira o colonizador e nem nas agitações para a constitucionalização do país, dava a impressão de que não existia. Ninguém levava em apreço a situação especialíssima do gaúcho no desempenho da missão gloriosa, mas pesadíssima de sentinela avançada da pátria, opondo-se a qualquer investida castelhana.
Como já disse, várias e complexas foram as causas que induziram os gaúchos à revolta contra o poder central, então nas mãos já frouxas do regente Feijó: causas políticas e causas econômicas. Entre as causas políticas há a ressaltar a grande influência que possuía o elemento português, investido em todos os cargos públicos, em vez dos próprios filhos da terra, além do esforço que aqueles vinham fazendo no sentido de promover a recolonização do Brasil por Portugal, para recolocá-lo na antiga situação de mísera colônia. Há ainda a ressaltar o desastre militar no Passo do Rosário, em 1827, em terras gaúchas, devido, em grande parte, à inexperiência do comandante em chefe do exército brasileiro. Foi o mais duro golpe infligido ao brio dos gaúchos, habituados a vencer sempre, desde os alvores da própria nacionalidade.
Em contrapeso à situação política que tanto exacerbava os ânimos, o governo do Rio de Janeiro procurava agravar, cada vez mais, a atribulação que pesava sobre a economia rio-grandense do sul. O governo central não só restabelecia a pontualidade no pagamento da tropa e seus fornecedores com as economias do Rio Grande como, também, extorquia-lhe todo o dinheiro necessário para atender às despesas militares em diferentes oportunidades. Horroroso é de citar o terrível despotismo militar que, naquele tempo, pesava sobre o povo rio-grandense.
Outra razão que instigava o gaúcho à luta, que punha lenha à fogueira da revolução, era a intriga que se fazia na Corte de que os liberais mantinham relações secretas com os chefes revolucionários do estado vizinho e, principalmente, com o General Lavalleja. Como se isso não bastasse, a intriga tomava maior vulto com as afirmações caluniosas de que os liberais tinham a intenção de separar o Rio Grande da comunhão brasileira e anexá-lo ao Estado Oriental. E apontavam, então, os intrigantes, para malquistar o Rio Grande do Sul com o resto do país, que o comandante da fronteira do Jaguarão, Bento Gonçalves da Silva, era o iniciador dessas negociações. Com essas afirmações falsas, com essas infâmias sem nome, procurava-se na Corte a má vontade do governo para com o Rio Grande e, ao mesmo tempo, indispor Bento Gonçalves com a Regência e fazer cessar, na terra sulina, a imensa popularidade do bravo militar, que era um dos seus grandes ídolos.
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O Rio Grande fora contagiado pelas idéias liberais dos vizinhos estrangeiros, emocionara-se com a revolução pernambucana de 1817, com a tentativa frustrada da Confederação do Equador, em 1824, e com os demais movimentos do norte do país. Dessa maneira, de há muito tempo, ia-se formando aquele sentimento revolucionário e, ao mesmo tempo, profundamente republicano.
Em Porto Alegre, capital da província, e nos principais núcleos de população, o ambiente tornara-se irrespirável, agitado, como estava, pelas lutas partidárias entre “Caramurus” e “Farroupilhas”.
Aqueles, portugueses e seus adeptos, no exercício de quase todos os cargos públicos de relevo, apraziam-se de perseguir estes, os quais, exacerbados pelas perseguições, não davam trégua àqueles. Os “Caramurus”, de mentalidade peninsular, sonhavam com a volta de D.Pedro I e a reincorporação do Brasil a Portugal. Os “Farrapos” encarnavam o espírito nacional, forte demais para se deixar vencer, ou abater sequer.
Era a primeira vez que, no Rio Grande do Sul, defrontavam-se as duas mentalidades: a mentalidade estreita, acanhada, mesquinha, trazida da Europa e aqui conservada à sombra da coroa imperial. A outra, mentalidade sadia, moça e robusta, formada ao grande ar das planícies sulinas e higienificadas pelo Minuano vivificador e nos reencontros homéricos com o inimigo da raça e da pátria. Os daquela mentalidade – os caramurus – não podiam compreender a liberdade, a democracia, a igualdade dos direitos entre os homens. Haviam sido formados na obediência passiva a todos os que tivessem foro de nobreza, privilégios, regalias, postos de comando, riqueza material. Estava-lhes no sangue e na consciência a submissão ao rei e seus satélites, a Deus e seus ministros, ao patrão e seus feitores e capatazes. Afora o ganho fácil que lhes proporcionasse o bom viver, de nada mais curavam.
Os farroupilhas, os de mentalidade diversa, eram os gaúchos, os peleadores intemerosos, os continentistas altivos à insolência. Haviam nascido na terra maravilhosa do Rio Grande do Sul e se formado com as armas na mão. Tinham ouvido o grito de liberdade de Simon Bolívar, solto nos Andes e repetido no pampa argentino por San Martin e nas coxilhas uruguaias por Artigas. Sabiam da história dos que, no Brasil, desde há muito, haviam pugnado pela liberdade. Os nomes dos chefes “emboabas” e “mascates”, de Felipe dos Santos, de Tiradentes e seus companheiros, do Miguelino e Frei Caneca – todos lhes eram familiares. Não queriam restrição alguma à sua liberdade de agir e nem admitiam subordinação à entidade humana.
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Foi, principalmente, o choque entre essas duas mentalidades que provocou o rompimento.
Ora, tal estado de coisas tinha que, forçosamente, influir no espírito do povo e gerar um profundo desgosto e uma inevitável revolta contra os responsáveis pela sua penosa situação de infelizes escravos. A revolta, senhores, não foi obra do momento, do acaso. Ela foi longamente pensada, desde quando o povo rio-grandense percebeu que estava sendo ludibriado, humilhado, por intermédio de todos os maus governos.
Desse modo, muito antes de se iniciar a revolução, os periódicos liberais pregavam, sem rebouças, as vantagens do sistema republicano e incentivavam os rio-grandenses a adotá-lo, salientando-se, nesse tentame, o famoso jornal “O Continentista” que, em artigo memorável, publicado antes da revolução, repetia a declaração do povo da Virgínia, insurgindo-se, em 1776, contra o governo inglês: “Cada vez que um governo for conhecido com o incapaz de preencher os grandes fins para que o povo o investiu no poder, ou que lhe seja contrário, a maioria da nação tem o direito indubitável, inalienável e inalterável de aboli-lo, substituí-lo e reformá-lo da maneira que julgar mais conveniente para o bem público.”
O gaúcho rio-grandense do sul ia, pela vez primeira, falar ao Brasil em matéria política. Até aquela data, conservara-se no desempenho da missão nacional de sentinela da pátria. Não era justo que dele só exigissem sacrifícios; se não lhe davam, ele se evocava o direito de se fazer ouvir. Se não o queriam considerar devidamente, por ato espontâneo, ele se imporia, à força, ao respeito do Centro.
E foi na madrugada de 20 de setembro de l835 que o povo rio-grandense tomou a iniciativa inabalável de se revoltar contra os seus opressores, os quais encarnavam na figura desprezível do então governador da província, o déspota tirano e cruel Dr. Fernandes Braga. Enquanto os trabalhos preparativos da revolução se processavam em Porto Alegre com todo o vigor, Bento Gonçalves excursionava pelo interior da província, em propaganda do movimento insurreto.
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