Estamos em Ponche Verde. Dois exércitos estão em armas. Um deles está coberto pela bandeira auriverde do Brasil. O outro, desfralda aos ventos o pavilhão tricolor da República Rio-grandense. E lá, junto a eles, estão dois homens, dois homens na expressão mais ladina da palavra. Um deles é Luiz Alves de Lima e Silva, general e barão. Mais tarde viria a ser marechal e duque. O outro é David Canabarro. Ao nome só pode juntar um título de fidalguia: gaúcho. Esses dois homens, nesse encontro, selaram o mais importante documento assinado por corações brasileiros, em todas as épocas e em todas as circunstâncias – a unidade do Brasil.Junto à barraca de Canabarro, todavia, no topo de um alto mastro, ainda se agitava, batida pelo vento do sul, a bandeira de Piratiny. Aquela mesma que fora testemunha de todos os grandes acontecimentos da República Riograndense. Que servira de pendão nos combates e símbolo nas solenidades. Que assistiu às sessões da Assembléia Constituinte. Nas lutas memoráveis que presenciou, cobriu-se do pó das estradas e do fumo dos canhões. Palpitou, vibrante, aos ventos do mar alto e desbotou-se ante as chuvas de inverno. Foi rasgada pelas espadas adversárias e mil vezes mutilada pelas balas inimigas. E sempre ereta, e sempre galharda. E sempre imponente e sempre majestosa se conservara, como naquele derradeiro instante de sua significação.
Canabarro, comandante em chefe do exército farroupilha, na sua última ordem dessa qualidade, ordena o arreamento do pavilhão invicto. Caxias, no seu mais fidalgo gesto, como homenagem à bravura e à lealdade dos seus antigos contendores e, agora, seus amigos e companheiros de armas, transmite a primeira ordem como comandante de todas as tropas que ali se acham: “Sentido!”
E, quando, devagar, majestosamente, solenemente, imponentemente, a bandeira tricolor vai descendo do seu alto mastro, enquanto os clarins vibravam e os tambores rufavam, Canabarro e Caxias, profundamente emocionados, apertam-se as mãos leais, num gesto simbólico da união indissolúvel entre os filhos desse Brasil imenso, imenso e lindo, lindo e maravilhoso.
F I M